A difícil criação do <i>Novo</i>
A Tragédia Optimista passa-se durante a Guerra Civil Russa (1918-21) e tem como pano de fundo um regimento de marinheiros, que uma jovem comissária bolchevique procura atrair para a linha política do Partido – pela qual, garante, vai «até onde for preciso». Longe de ser uma peça histórica, a obra de Vsevolod Vichnievsky põe em confronto o individual e o colectivo, a abnegação revolucionária e o niilismo abstencionista, a transformação da realidade concreta e o idealismo utopista.
Rui Carlos Mateus
Que fazer com esta vida? Para o encenador, Rodrigo Francisco, esta é a grande questão que perpassa pel’ A Tragédia Optimista, que estará em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, entre 4 e 13 de Dezembro. Na opinião daquele que é também director da Companhia de Teatro de Almada, a obra de Vichinievsky responde sem ambiguidades (mas também sem moralismos): inseri-la em algo maior, num movimento de luta pela transformação revolucionária da sociedade.
A Tragédia Optimista passa-se a bordo de um navio soviético da frota de Cronstadt em plena Guerra Civil que opôs os bolcheviques à reacção interna conluiada com a «Santa Aliança» de países capitalistas (que os comunistas acabariam por vencer em 1921). É para aí que segue uma jovem comissária, enviada pelo governo soviético, com a missão de ganhar a tripulação para a causa da revolução socialista e para o combate aos «brancos». A fim de concretizar estes objectivos, a jovem comunista terá que acabar com a paralisante influência anarquista, que predominava entre os marinheiros, transformar a tripulação num verdadeiro regimento de combate e reintroduzir, sob apertada vigilância, o comando do antigo oficial em prol da eficiência militar.
O conflito permanente entre o interesse individual e o bem comum é um dos temas que atravessa toda a peça, até ao triunfo do segundo sobre o primeiro, consumado na cena final. Aqui, os marinheiros avançam para o fuzilamento certos de que «a morte não existe», pois «enquanto houver um marinheiro vivo, toda a frota está viva». A própria comissária, seguindo à frente dos homens para o trágico fim, enfrentou-o com coragem: «Bem sabemos que a liberdade tem um preço. Foi um preço que aceitámos e não vai ser o medo da morte que nos fará recuar.»
A bravura da comissária e dos marinheiros está longe de ser uma mera cena teatral heróica, antes expressa uma realidade tantas vezes repetida no processo da revolução soviética. Vichnievsky foi, ele próprio, um combatente: esteve nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, participou nos combates revolucionários de Fevereiro e Outubro de 1917 e foi parte activa na criação do Exército Vermelho; mais tarde estará, como correspondente do Pravda, na heróica Leninegrado durante o cerco nazi. Quer nos campos de batalha quer nas imensas tarefas de edificação do socialismo, o autor presenciou – e porventura protagonizou – exemplos de entrega e abnegação sem limites à causa da emancipação dos trabalhadores e dos povos.
Longe de ser exclusivo dos bolcheviques russos, este heroísmo é marca distintiva dos comunistas de todo o mundo. Na guerra civil espanhola ou durante a ocupação nazi de França, por exemplo, militantes comunistas enfrentaram o pelotão de fuzilamento com punhos cerrados e cantando A Internacional; em Portugal ou no Chile, vários morreram na tortura para não denunciarem os seus camaradas; em vários países asiáticos, africanos e americanos, muitos tombaram com armas na mão a lutar pela independência e a liberdade dos seus povos. Muitos não tiveram que pagar tão elevado preço pela sua luta, mas estavam dispostos a isso se tal opção tivesse sido colocada.
Não há caminhos fáceis
A dedicação da comissária (para quem vale a pena morrer para «salvar os homens da miséria e da escravatura») choca com a postura do marinheiro Alexei, consciente da realidade mas assumindo perante ela uma atitude passiva. Uma conversa entre ambos revela as diferentes posições, que evoluem com o texto: o marinheiro – que já antes garantira que «o meu partido é não ter partido» – assume que «querer mudar os homens é marrar contra uma parede», pois «continuamos aferrados ao que é nosso»; a comissária confronta-o: «E tu vês isso tudo e não queres saber. É preciso gritar aos ouvidos de cada um: “Estás a ficar sem a tua parte! Estás a ser roubado!” E se mesmo assim ele ainda não entender, é preciso agarrá-lo pelo toutiço, a esse piolhoso, levantar-lhe a cara da lama e dizer-lhe (…) “levanta a cabeça, porra! Enfrenta o inimigo, olhos nos olhos, até à morte se for preciso”.»
Nos primeiros meses do poder soviético como no momento em que Vichnievsky escreveu A Tragédia Optimista os bolcheviques confrontaram-se com desafios imensos e inéditos, para os quais não existiam respostas fáceis. Tal como aconteceria nos anos 30 com a industrialização e a colectivização da agricultura, também o «comunismo de guerra» e a reintrodução da disciplina militar, impostos pouco depois da Revolução de Outubro para fazer face à agressão estrangeira e à reacção interna, suscitaram divisões em sectores políticos e sociais mais vacilantes e mesmo entre bolcheviques.
Vichnievsky trata magistralmente o assunto nos debates que retrata entre a comissária e os marinheiros. De um lado está a jovem comunista que, não sem dúvidas e inquietações, compreende que o caminho para a sociedade sem classes não se faz sem obstáculos e recuos; do outro estão os marinheiros anarquistas, inicialmente indisponíveis para tudo o que não fosse o usufruto total e imediato da liberdade conquistada, mesmo que o preço a pagar fosse a perda completa dessa mesma liberdade – que ocorreria caso os «brancos» saíssem vitoriosos da guerra. A história deu razão à comissária: o percurso para a nova sociedade e para o novo homem foi mais conturbado do que se poderia imaginar, mas nada apaga o facto de os bolcheviques terem dirigido a mais profunda de todas as revoluções, que abriu as portas a conquistas políticas, económicas, sociais e culturais sem precedentes, na Rússia e no mundo.
A Tragédia Optimista é uma estreia absoluta em Portugal. A peça original, escrita em 1932 e representada no início do ano seguinte, venceu um concurso de teatro comemorativo dos 15 anos do Exército Vermelho. Ela seria reescrita por duas vezes: em 1937, por sugestão de dramaturgos como Máximo Gorki, e a segunda em 1945 para integrar alterações inspiradas nos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. A versão que subirá ao palco almadense é, no essencial, a original – que, para o encenador, é a «mais interessante e complexa». Mas ela acolhe também alguns elementos das variantes posteriores e diversas referências sonoras e visuais à nossa Revolução de Abril.